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C.U.F.D.

Sede Social Própria:

Rua 24 de Maio, 188

3º Andar - Conj.: 304

Centro - São Paulo/SP

Cep.: 01041-000


 
 

Detetive é uma palavra de origem inglesa, que significa detectar um fato, pilhar, investigar, desmascarar suas circunstancias e pessoas neles envolvidas.

 

     
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C.U.F.D. - Detetives

Entidade com ramificações desde 1.961 em São Paulo-SP - Brasil (Embrail - Empresa Brasileira de Investigações Ltda.), e APRODEPAB -(Associação Profissional dos Detetives Particulares do Brasil).
Nossa entidade é uma organização voltada à área de Investigações Confidenciais e Departamento de Ensino para detetives particulares que militam na área de serviços de inteligência particular em todo o território nacional.
Detetive Particular é como um advogado, trabalha para clientes e em serviços que não podem e não devem ser executados por detetives policiais, os quais, como funcionários públicos, somente podem trabalhar para o Estado. A profissão é amplamente amparada por legislações federais, estaduais e municipais e, principalmente pela Constituição da República Federativa do Brasil.

 
 

Matérias


 

ESPIONAMOS OS DETETIVES PARTICULARES
Por FRED MELO PAIVA
O investigador Elias Almeida, 31anos é formado a dez pela Central."Dudu" como é conhecido, argumenta: "É mais fácil fazer uma gravação do que ficar seguindo alguém 24 horas por dia". Foi assim que Dudu localizou o paradeiro dos donos de uma empresa-fantasma que comprava três carros num leasing e desaparecera em seguida. Ele já havia reparado que um senhor costumava passar no antigo endereço da empresa para recolher correspondência. Seguiu o homem até em casa, e descobriu tudo, os ladrões estavam dando ordens: que rasgasse as cobranças e lhes mandasse o resto para rua tal, número tal, CEP e tudo - a casa nova dos bandidos.
No começo desta década, Dudu investigava, a pedido de um partido adversário, um vereador de Campinas cuja a popularidade crescente poderia faze-lo prefeito nas eleições seguintes. Depois de grava-lo numa minicâmera aos beijos com um rapaz na boate gay, o próprio Dudu passeava de mãos dadas com o assistente, o partido tratou de tira-lo de cena.
Quando teve com seu assistente na boate gay, não era a primeira vez que Dudu se passava por homossexual. Lançara mão do mesmo argumento para penetrar num motel e vasculhar as garagens em busca da suíte de seu investigado, um pulador de cerca crônico. Ainda que se tenha saído bem em ambas as missões, verificam-se ereções discursivas quando fala de suas experiências deliciosamente convencionais (embora nem tanto). Certa vez, um banqueiro de São Paulo pediu que investigasse a vida privada de seu amigo e diretor financeiro, para quem pretendia passar o comando da empresa. Numa sexta-feira, depois de sair de uma churrascaria, o executivo resolveu levar a esposa para dançar. Escolheu uma boate no bairro do Pacaembu, onde Dudu foi impedido de entrar por estar desacompanhado. O detetive pediu que uma amiga voltasse junto com ele, e, lá dentro, pasmou: estava numa casa de troca de casais, " o cara e a mulher dele estavam transando com todo mundo" .deu azar no voyeur, perdeu a presidência do banco. Pelo menos ninguém se furtou da festa. Isso, jamais. "Aconteceu duas vezes: a mulher traída tirou a roupa na minha frente e perguntou se era tão ruim a ponto de o marido trocá-la por outra", delicia-se. "E pediu para eu fazer sexo com ela, para ver se o problema estava na cama." Furtar-se, jamais: "Mandei ver".
Às vezes as descobertas são pouco sensacionais. Uma atriz da Globo que mora em São Paulo chegou a contratar a equipe de investigadores mantida pela Central Única de Detetives do Brasil para saber onde se metia a filha quando cabulava aulas no colégio. Descobriu que a menina pulava o muro de um cemitério, encontrava alguns amigos, tomava vinho, fumava maconha, ouvia música e dançava, estava tudo nas fotos tiradas a distancia, nos relatórios. Em resumo: tanto material produzido para saber que a filha não era hippie nem punk. Era gótica. Para o detetive Eloy de Lacerda, pode-se dar bocejos confortadores quando a missão tem zero de adrenalina. " Uma vez achei o pai de uma garota desaparecido a 25 anos apenas conferindo na lista telefônica de São Paulo", conta.
Um dos momentos mais tensos da vida do detetive Almeida, o Dudu, aconteceu em 1996. certo de que a mulher de seu cliente entrara com o amante num motel o detetive lhe telefonou. Encontraram-se na porta e esperaram até que o carro dela apontasse na saída do prédio. Nesse momento, aproximaram-se, a pedido do marido, que até então se mantinha calmo. "De repente ele sacou uma arma e deu dois tiros nela", lembra. "Fiquei perplexo, comecei a tremer, a mulher morta na minha frente." Por causa de um contrato de trabalho, Dudu escapou do processo de cumplicidade.
É duro trabalhar como detetive, mas pode valer um bom dinheiro, 300 a 500 reais é o que cobra por uma diária de seguimento, o que significa o mínimo 10.000 reais no final de um mês com agenda gorda. Para tanto, é preciso se equipar, munir-se de minicâmeras, gravadores. Não sai por menos de 25.000 reais o pacote de equipamentos, mas usa-lo, alem de rentável, pode ser divertido.
"Não acreditamos no que assistimos pelas fitas", delicia-se. "O supervisor, amicíssimo do chefe, passava em frente ao quadro e mandava o patrão tomar no cu, sinalizando com o dedo todo santo dia." Com a ajuda das câmeras, Ângela descobriu que uma das funcionarias recheava o sanduíche com peças subtraídas do estoque, embalava-o de volta no papel laminado e, assim escapava dos sensores instalados pela segurança.

 

 

Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


Office boy
Os pais de Marquinho são detetives. Os avós também. E os tios. Ele não. Aos 18, ele ainda cursa o primeiro ano do 2º grau, está tirando carteira de motorista, gosta de sair para baladas, bater uma bolinha e namorar. Exceto por umas fitas de videogame de investigação que jogava com Paulo Rogério, o irmão de 15 anos, nunca se interessou pela profissão.
Ele não gosta da idéia de ser detetive. Até porque, não fosse a escolha profissional de sua família, ele poderia estar bem longe, e não desabado em uma poltrona naquele misto de escola de detetives e agência de investigações, do qual seu pai, Marco Aurélio de Souza, é o dono.
Marquinho não investiga nada. É o office-boy do Iudep (Instituto Universal dos Detetives Particulares), como revela a placa preta logo acima da mesa da recepcionista. Quase um esconderijo nas entranhas do centro de São Paulo, há dez anos vendendo o sonho de uma profissão por definição intrigante e perigosamente charmosa.
Mas quem chega logo percebe que o glamour se perdeu em algum ponto entre os livros de Edgar Allan Poe e os filmes de Hollywood. O nome pomposo do instituto contrasta com a simplicidade de suas dependências, cinco salinhas e um banheiro. Na mesa diante da entrada, há apenas vários telefones e santinhos de uma vereadora da eleição passada.
Lá fora, a manhã de quarta-feira é ensolarada, mas são as gélidas lâmpadas brancas que iluminam as paredes pintadas de azul-bebê, enfeitadas com recortes de jornais. Uma fina camada de poeira cobre o piso de madeira. O sofá azul de estampa quadriculada, que faz conjunto com as duas poltronas de babadinhos em frente, poderia adornar a casa de uma velhinha, não fosse o furo de cigarro no tecido. Já o filtro de água faria seu papel em qualquer repartição pública, mas faltam copinhos descartáveis. Há apenas dois copos de vidro que os alunos evitam usar.
Numa das poltronas, ao lado da mesa onde está agora a recepcionista, Marquinho tira um cochilo. Está mais para adolescente que para adulto. Sempre usa os cabelos curtos arrepiados para cima com gel. Rosto miúdo, sem sinal de barba, camiseta e jeans largos, tênis incrementado pisando no estofado, parece se sentir à vontade demais no trabalho. No entanto, são poucos os que passam por ali e escutam sua voz. Ali, o entediado Marquinho não tem muito a dizer.
O silêncio quase constrangedor é interrompido pelo barulho agudo do telefone. Estridente, o som domina a atmosfera do lugar, como se denunciasse a aflição na outra ponta da linha. A recepcionista, uma mocinha de dentes espaçados, cabelos tingidos de louro, vestindo jeans e blusa num tom infantil de rosa, parece não se dar conta da chamada enquanto bate à máquina e pega uma caneta do porta-lápis do Mickey. Marquinho continua de olhos fechados.


Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


Marco Aurélio
É Marco Aurélio, o pai de Marquinho, quem cruza a saleta para dar fim àquela repetição. Ele não parece um detetive. Longe de ser um Humphrey Bogart, tem pouco mais de 1,70m de altura. Com o corpo esguio, vestindo camiseta branca presa por baixo da calça jeans, Marco Aurélio tem o ar saudável de quem não adotou maus hábitos de vida. Entre um bombeiro e um detetive, qualquer um apostaria na primeira opção.
O rosto bem barbeado, de olhos e boca pequenos, traços finos e simétricos, não é o de um homem de 41 anos, pai de três filhos. A pele não tem rugas ou marcas, e a única coisa a denunciar que ele já não é um garoto são os fios grisalhos que estão surgindo nas têmporas – o que o penteado arrepiado com gel, igual ao de Marquinho, ajuda a disfarçar.
Na parede atrás da poltrona onde o office-boy está recostado, há um recorte de jornal emoldurado. Nele, está Lucilene, a mãe de Marquinho, uma loira de olhos escuros, sorriso branco e largo, abraçada a Zé do Caixão, de cartola preta e unhas assustadoramente compridas.
Lucilene não está no instituto naquela manhã. Com um bebê temporão de 8 meses, tem ficado mais em casa. Mas, mesmo com Júlio César nos braços, fecha contratos por telefone. É ela quem coordena o departamento de investigações do Iudep, embora dê aulas aos futuros detetives. Marco Aurélio cuida do curso e não é professor.
Firme e clara, a voz do pai de Marquinho ao telefone ecoa por todos os ambientes.
– É... O curso custa R$ 90, já com apostilas pra você estudar em casa. Aí tem mais R$ 40 pra retirar a documentação. Qual é o seu nome, desculpe? Ah, Felipe. No próximo sábado não vai ter aula porque é feriado. Mas as aulas são aos sábados, das 10h ao meio-dia, e segundas-feiras, das 18 às 20h. Ok? Ahã.
Marco Aurélio pede desculpas pela demora. No escritório amplo, senta-se atrás de uma mesa onde um telefone cor-de-rosa chama a atenção. Na parede, há uma tela bordada com a figura de um cavalo, crinas de lã saltando para fora da figura.
– Essa sala é da minha esposa – avisa.
É o tipo de homem que vibra quando um feriado cai em um sábado. Com o curso funcionando sem interrupções, Marco Aurélio nunca tira férias. E, apesar de ter deixado as investigações há um bom tempo, repassando os casos para os melhores entre os 10 mil detetives cadastrados no Iudep, Marco Aurélio volta e meia faz algum serviço nas horas de folga. No domingo mesmo, havia feito uma varredura na casa de uma senhora que tinha certeza de que o telefone estava grampeado e que era observada por câmeras.
– Fui lá e não tinha nada... Ela tem mania de perseguição, eu acho. Mas fiz meu trabalho. Quando não acontece nada, você cobra do mesmo jeito.
Ele não se incomoda de administrar a escola sem dar aulas. Também não sente falta da rua. Tímido e sem paciência para seguir pessoas, até prefere. Para Marco Aurélio, poucas coisas podem ser mais aborrecidas do que fazer campana. Na definição do manual entregue aos alunos, campana é uma gíria que significa “observação discreta nas imediações de algum lugar, para conhecer movimentos de pessoas ou fiscalizar a chegada ou saída de alguém”. Ou, ainda, seguir alguém de modo discreto, para conhecer seus movimentos e ligações.
Foi um serviço de campana o primeiro caso de Marco Aurélio, quando tinha 17 anos. Um caso que ele não resolveu. Tinha de esperar a mulher de seu cliente, que estava viajando, sair do prédio. Ficou das 8h às 22h dentro do carro e – embora não usasse capa nem fumasse cachimbo à Sherlock Holmes ¬–, reproduziu a cena clássica que o cinema transformou em chavão, mas que faz parte da realidade tediosa de muitas campanas mundo afora: Marco Aurélio leu todos os jornais do dia.
Foi só desistir e ir para casa que a mulher saiu. Quem descobriu a verdade foi o próprio cliente, que ligou para a esposa depois das 22h. Outro agente seguiu com o caso e constatou que a mulher saía todas as noites para beijar estranhos em boates.
Marco Aurélio passou a trabalhar com problemas mais objetivos, até montar sua própria escola, há dez anos.
Ele vê seu negócio como outro qualquer. E não é porque lida diariamente com a paranóia e outras misérias da alma humana que age diferente. Seu estilo de trabalho dinâmico e silencioso poderia muito bem ser aplicado à administração de uma auto-escola. Mas, todos os dias, quando apaga as luzes e fecha o Iudep, a desconfiança o acompanha para fora dali.
Quando está dirigindo, olha para os lados, não tira o olho do retrovisor, certifica-se de que não está sendo seguido. Com Lucilene e os filhos, não é diferente.
– Eu confio na minha esposa, mas quero saber o que ela está fazendo. Saio de casa, mas depois de meia hora volto, digo que esqueci uma chave, dou uma desculpa qualquer. Mas sempre fiz de um jeito que ela não percebesse – e ele abre um sorriso envergonhado. – A mesma coisa com meus filhos. Às vezes vou à escola do meu filho mais velho para ver se ele realmente está lá. Ele trabalha aqui comigo, faz pagamentos...
Marco Aurélio também tem à disposição uma infinidade de equipamentos que vende aos alunos que freqüentam o curso. O mais comum, de escuta telefônica, só pode ser colocado com autorização judicial. A menos que a pessoa interessada ponha um grampo no próprio telefone. Marco Aurélio admite que já pôs escuta em casa. Mas diz que não pegou nada grave.
– Só baladinha do meu filho com pessoas que eu não gosto. Mas posso levantar as ligações da minha esposa, puxar uma conta detalhada. Sabendo disso, eles podem até dar um jeito de camuflar. Mas acho difícil.
O comportamento de Marco Aurélio não difere muito do que fazem homens que nunca sonharam ser detetives. Os chamados casos conjugais são, disparados, os mais freqüentes nas agências de São Paulo. E é cada vez mais comum investigar adolescentes para saber se estão envolvidos com drogas.
– Acho que é devido à profissão que eu sou uma pessoa desconfiada – diz Marco Aurélio, desviando o olhar e escolhendo as palavras.
Nesse meio tempo, Marquinho foi tirar xerox e voltou. Continua em silêncio. Está claro: o filho trabalha lá mais pela necessidade que Marco Aurélio tem de mantê-lo sob seus olhos do que por vontade que siga seus passos. O menino já foi expulso de duas escolas.
Marco Aurélio um dia já esteve no lugar do filho. Só queria saber de jogar bola e ficar na rua quando seu próprio pai o colocou para trabalhar na agência. Agora, reproduz no filho parte da educação que recebeu do pai, porém sem o rigor daqueles tempos. Marco Aurélio era tão protegido que só teve autorização para ir à praia sem os pais quando tinha 19 anos, já prestes a se casar.
– Não queria que o Marquinho fosse detetive, não – confessa Marco Aurélio, caminhando pelas ruas do centro até a Rua 24 de Maio, onde fica o escritório de seu pai, Evódio Eloísio de Souza, o veterano detetive Souza, que foi quem começou com tudo aquilo.


Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


Dicky Uínchester
Bento Alves de Souza poderia ter dado início a uma linhagem de cirurgiões-dentistas na Zona da Mata mineira. Mas o temperamento forte do homem que ganhava a vida cuidando das bocas dos peões da fazenda fez com que seu filho único, Evódio, fugisse da pequena cidade de Ervália, no interior de Minas, para tentar a sorte em São Paulo. Não fosse por esse ato de rebeldia de seu avô na juventude, dificilmente Marquinho nasceria em uma família de investigadores particulares.
Era 1959 e Evódio tinha 17 anos. Desde os 9 vivia com o pai, que havia conseguido sua guarda na Justiça. Até então, morava com a mãe, de quem Bento se separara quando o menino tinha 2 anos de idade.
Cansado da convivência com o pai, a quem consideraria “um pouco cruel” mesmo depois de saber o que é chefiar uma família, Evódio conseguiu dinheiro emprestado com um amigo e decidiu desaparecer. Fugiu a pé, de madrugada, e caminhou por 30 quilômetros até a cidade vizinha, Limeira. Sem dormir, pegou um ônibus até Muriaé e, de lá, rumou para São Paulo, só com a certidão de nascimento.
Em São Paulo, foi parar no Brás, na zona leste, mesma região onde criaria seus filhos e netos. Instalou-se na pensão de um português que logo ficou seu amigo e lhe arrumou um emprego de vendedor de bebidas. Dividia o quarto com mais três rapazes.
Somente dez meses depois de ir para São Paulo, Evódio decidiu voltar a Minas. Com o pretexto de se apresentar ao Exército em Juiz de Fora, foi à cidadezinha reencontrar seu pai. Bento se desesperara quando o filho fugiu, procurou-o por toda parte. Fizeram as pazes, mas isso não impediu Evódio de voltar para São Paulo.
De fato, um novo emprego esperava por ele na Rua 25 de Março, na empresa têxtil Assad Abdala. Ao aceitar uma posição de informante comercial, não imaginava que dava o primeiro passo em sua carreira de detetive. O serviço de glamouroso não tinha nada, mas exigia responsabilidade. Se um cliente queria fazer comprar uma peça de tecido a prazo, era Evódio quem averiguava se o sujeito tinha idoneidade para receber o crédito. De lá, Evódio sairia aos 19 anos para ser informante de crédito bancário no Banco Nacional do Norte
Com o tempo, porém, investigar a saúde financeira das pessoas começou a já não bastar para Evódio. Veio o interesse por um curso de detetive por correspondência do Instituto de Investigações Científicas e Criminais, do Rio. As primeiras lições o fascinaram: campana a pé, fixa, com veículo, localização de desaparecidos, casos conjugais, contra-espionagem comercial e industrial, estudo da vida pregressa de indivíduos.
Sem que o banco soubesse, Evódio montou um escritório de investigações. Logo contratou uma equipe e passou a resolver os casos de mistério que pairavam por São Paulo sem resposta naqueles anos 60. Como não se cansaria de repetir, décadas mais tarde, a Empresa Brasileira de Investigações Ltda., Embrail, foi a segunda agência particular de investigações a se estabelecer em São Paulo. O pioneiro havia sido Oquimar Gama Lopes, o detetive Gama, com quem Evódio teria sempre uma relação de respeito e dividiria momentos difíceis na época da ditadura militar.
Com um mercado praticamente inexplorado, o negócio prosperou. Logo, Evódio pediu as contas no banco e passou a se dedicar integralmente à Embrail. Começou a oferecer cursos e formar mais detetives. Eram cinco, seis casos que apareciam todos os dias, e em pouco tempo Evódio tinha 47 investigadores trabalhando para ele.
Hoje, aos 65 anos, Evódio está no FBI. Melhor dizendo, NA FBI, como batizou a Federação Brasileira de Investigações. Seus domínios ficam no sétimo andar do prédio número 188 da Rua 24 de Maio, a duas quadras de onde o filho mais velho, Marco Aurélio, administra a própria escola de detetives. Volta e meia, porém, os filhos vão até sua sala fazer alguma consulta. Afinal, Evódio se tornou mais que um detetive tarimbado. Ele é o epicentro psicológico da cadeia complexa de investigações e escolas de detetive que envolve quase toda a família, até mesmo os que não gostam da profissão, como o neto mais velho.
Sob o escudo estilizado da FBI, escancaradamente inspirado na homônima mais famosa, o aviso impresso em letras de computador parece um misterioso convite à entrada de Marco Aurélio. “Entre sem bater. Feche a porta ao entrar.” O filho, porém, não se demora, pergunta se o pai está ocupado e, com um tom profissional respeitoso, se pode receber uma jornalista. Evódio assente, e Marco então volta ao Iudep.
Diferentemente do tom “noir” do instituto de Marco Aurélio, a FBI de Evódio é ampla, clara, ensolarada. À primeira vista, os dois homens e a moça que trabalham nos computadores rodeados de pilhas de papéis parecem ser funcionários públicos. Poderíamos estar em uma delegacia. Evódio trabalha em uma salinha nos fundos do conjunto
Ele não é magro nem gordo. Como o filho mais velho, não deve passar de 1,70 m. Calça e sapatos pretos, está vestindo uma camisa cinza de tecido mole, aberta alguns botões abaixo do pescoço, que revela um tórax avermelhado, sem pêlos. Tem olhos escuros, nariz bem marcado, lábios ressecados de cigarro, a pele muito clara do rosto traz as marcas de quem já viveu muita coisa, embora as rugas destoem dos cabelos de um castanho muito escuro, num tom vivo demais para um homem de 65 anos.
Três telefones estão sobre sua ampla mesa, onde há alguns objetos que, aparentemente, pouca utilidade teriam para um detetive, como um pote cheio de pregos e uma tesoura vermelha. No caminho entre suas mãos e o teclado do computador, está o inseparável maço de Hollywood. O detetive Souza fuma sem parar. A manhã mal terminou e o cinzeiro está abarrotado de bitucas grandes, como se ele nunca conseguisse - ou quisesse - terminar um cigarro.
O detetive Souza é daquele tipo de pessoa cuja presença naturalmente solene é capaz de intimidar até o peixinho do aquário. Quando toma a palavra, recostado em sua poltrona, pronuncia as frases sem pressa, revisita suas histórias com o mesmo brilho dos olhos de quem as vive.
– Trabalho até hoje. Casos de alta responsabilidade você não pode dar pra agentes. Eu tenho que fazer. Uma campana que envolve deputado, senador, não tenho confiança de dar para um agente. Se eu fizer, sei que vai sair um serviço perfeito – diz Evódio.
Ele faz questão de pegar os casos bem remunerados, embora os tempos sejam hoje bem diferentes da época em que ele e o detetive Gama podiam se dar ao luxo de escolher e rejeitar clientes.
Cada caso intrigante e bem resolvido que passa por suas mãos é candidato a se transformar em mais um fascículo da Coleção Dicky Uínchester, escrita por ele e editada informalmente na forma de livretos grampeados de capa mole.
Dicky, seu alter ego, o detetive brasileiro. São mais de cinqüenta livretos de aventuras pelo mundo das investigações. Apesar de serem baseadas em fatos que realmente aconteceram (com nomes e lugares trocados, para preservar os envolvidos na trama), suas histórias não fogem às premissas básicas dos contos detetivescos. Dicky é durão, galanteador e sombrio. Nas páginas fotocopiadas de folha sulfite branca, a imaginação de Evódio se liberta.
Dicky estendeu o maço e acendeu o cigarro de Raquel. Não estava com vontade de fumar naquele momento. Incrível, ele não estava com vontade de fumar. Um fumante inveterado.
Raquel deu algumas tragadas e apagou o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira.
- Estou com calor - exclamou. - Vou tirar o casaco.
Esticou o braço e apagou a luz. O camarote ficou às escuras. Uma claridade tênue entrava pela vigia e o luar dava um tom fantasmagórico ao camarote.
- Dicky... - Repetiu Raquel.
- Fale.
- Beije-me.
Dicky beijou-a.
Ela o agarrou com os dois braços e o tempo deixou de ter significação para eles.
Apesar de ser fumante como Dicky, Evódio é casado há mais de 40 anos com a mesma mulher, Ana Maria. Quando a conheceu, ainda morava na pensão do português. Já havia visto aquela morena de 1,62 da vizinhança, mas nunca tinha coragem de se aproximar. Até que, certo dia, Evódio estava numa padaria quando a moça chegou para comprar pão. Abandonou a timidez e se aproximou.
– Preciso falar com você, estou apaixonado por você. Eu disse alguma dessas coisas de garoto apaixonado. Deu certo, casei no ano seguinte. Logo que começamos a namorar eu a trouxe para fazer o curso. Ela trabalhava como auxiliar de enfermagem. Eu a formei. Era excelente aluna.
Recém-casados, os dois costumavam fazer campanas juntos.
– Para fazer um trabalho perfeito, nós íamos seguir com dois veículos, ela dirigindo um e eu o outro. Muitas vezes, eu perdia o carro de vista e ela continuava.
Certa vez, uma jovem da alta sociedade de 23 anos contratou Evódio para investigar seu marido, que, já havia seis meses, não tinha mais relações sexuais com ela. O detetive deveria seguir o rapaz, também muito jovem e dono de uma grande empresa no ABC, para descobrir o que ele fazia depois do expediente, entre às 18 e às 2h, quando finalmente voltava para casa.
Na primeira semana, Evódio e Ana Maria se revezaram; cada dia era um que seguia o homem. Mas nada aconteceu. O marido trabalhava até 21h e ia para um bar beber com os próprios funcionários, com quem ficava até 23h, jogando baralho e dominó.
A cliente resolveu renovar o contrato por mais uma semana. Durante o dia, agentes do escritório de Evódio seguiam o homem. O casal Souza trabalhava à noite. Então o homem, por volta das 21 horas, deixou o serviço e entrou em um prédio na região da Praça da República. Enquanto esperavam, Evódio e Ana Maria continuaram o monitoramento, sentados em um barzinho de galeria.
Viram, então, sair à rua uma mulher muito parecida com o homem investigado. Alta, de saia, cabelos compridos, o mesmo nariz adunco. Evódio, que bebia cerveja, virou-se para a esposa e comentou que talvez a mulher fosse irmã do rapaz. Mas Ana continuou olhando e reparou melhor do jeito como aquela mulher andava, um pouco masculino.
– Era o próprio sujeito, de saia e peruca, travestido de mulher!
Daí a flagrar o rapaz entrando em um bar na Avenida Ipiranga, onde ficou aos beijos com um negro forte, foi muito fácil. À Ana Maria coube a tarefa de ligar para a mulher.
Quando a cliente chegou e assistiu à cena de longe, disse ao casal, chorando, que já estava desconfiada da feminilidade do marido. E pediu, encarecidamente, que Evódio aceitasse um pagamento a mais para levá-la de volta à casa dos pais, em Ribeirão Preto. O detetive deixou Ana Maria em casa e levou a cliente embora. Nunca mais a viu.
– Esse foi um caso em que minha esposa me ajudou. Ela tem o próprio escritório, hoje - diz Evódio, com uma doçura rara no olhar, quase sempre duro. - Temos seis filhos.


Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


Ana Maria
Descrita pelos filhos como uma mulher tranqüila, que passa horas a fio tecendo tapetes para toda a família e que não consegue ficar sem uma vassoura na mão, Ana Maria é “concorrente” de Evódio. Administra a Central Única dos Detetives, no terceiro andar do mesmo prédio. A matriarca da família é auxiliada por Denison, o quinto dos seis filhos. Marcelo, dois anos mais novo que Marco Aurélio, trabalha na FBI com Evódio. E Carla, a quarta filha, toma conta do sindicato da categoria, que fica no mesmo andar da FBI. As outras duas filhas, Meirelane e Danielle, chegaram a ter contato com a profissão, mas hoje ganham a vida de um jeito mais convencional. Meirelane, muito dada aos estudos, orgulho do pai, é diretora de escola. Danielle tem uma videolocadora.
Evódio avisa que a esposa não está podendo falar por estes dias. Tem viajado muito a Porto Ferreira para cuidar da mãe, que tem mais de 90 anos.
Semanas depois, continuaria difícil falar com Dona Ana, como é conhecida no mundo dos detetives. Nem por telefone era possível encontrá-la. As negativas dos funcionários se acumularam ao longo de semanas.
– Dona Ana saiu.
– Ela não volta mais hoje.
– É só com ela?
– Não sei se ela vem trabalhar amanhã.
Nenhum retorno, nenhuma pista. Mesmo várias batidas à porta da Central Única não ajudam. Pelo celular, Evódio tem um tom de voz bem diferente.
– Você não vai conseguir falar com ela, compreende? Ela foi para o interior cuidar da mãe, nem sei se ela volta mais. Eu sinto muito.
E então concluiu a rápida conversa:
– Você falar comigo e com ela é a mesma coisa. Mas agora estou muito ocupado com uma investigação.
O tom de voz frio indica que Evódio desconfia de algo. Ou, então, está apenas querendo deixar claro: quem investiga é ele.


Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


Lucilene
Depois que o último aluno da escola deixa o Iudep no sábado, Marco Aurélio transfere as chamadas para o aparelho da casa de três quartos onde ele, Lucilene e os filhos Marquinho, de 18 anos, Paulo Rogério, de 15 anos, e o temporão Júlio César, de 8 meses, moram, na Penha, zona leste.
Lucilene já pediu para Marco se desligar um pouco da escola, mas é quase impossível. Ela mesma, professora do curso e responsável pelo departamento de investigações, não consegue se desvencilhar dos casos.
– Às vezes eu penso em parar. Desgasta, mas para ganhar o salário que a gente ganha sem estudo, por aí, é muito difícil – diz Lucilene, diante do telefone cor-de-rosa que enfeita sua mesa.
Dos três filhos, é o pequeno Júlio o único em quem ela apostaria que possa se tornar detetive um dia.
– Hoje não o trouxe para o escritório porque queria passar na 25 de Março. Mas eu ponho ele no carro e levo pra cima e pra baixo. Aonde ele vai, olha tudo, os quadros, os enfeites... Os outros dois não eram assim, são como o pai.
– Tô indo embora – interrompe Marquinho, na porta do escritório.
– Claro que não. Fica aí.
– Ah, não...
– Liga pro seu pai.
O garoto não discute.
A mulher de Marco Aurélio é alta, encorpada e imponente. Os cabelos tingidos de louro queimado, na altura dos ombros, estão escovados para fora, embora ela ainda não tenha tido tempo de fazer as unhas nesta semana – o esmalte prateado começa a descascar. Gosta de vestidos e saias e não consegue andar sem saltos altos. Mas seu guarda-roupas também esconde belas bolsas com pequenos furos para câmeras, que às vezes ela aluga para as amigas mais desconfiadas.
– Não pode ter vergonha de nada. Tem lugares em que você tem que dar uma de gay, de retardada, de empregada. Já me vesti de andarilha para observar a movimentação dentro de uma casa. Improvisei umas roupas sujas e me transformei dentro do carro.
Diferente de Marco Aurélio, com que está casada há 20 anos, seu namorado desde os tempos de colégio, Lucilene não é tímida. Ela fala alto, sua presença domina qualquer ambiente. Embora a desconfiança não esteja em seu DNA – o marido a colocou na profissão, segundo ele, para que Lucilene pudesse ganhar o próprio dinheiro para gastar em cabeleireiros e lojas – ela logo deu certo na profissão.
Lucilene foi levada por Marco Aurélio para trabalhar com o sogro. No começo, apenas atendia às pessoas e batia à máquina. Mas caiu nas graças de Evódio ao fotografar a amante do marido de uma cliente, depois que vários agentes haviam fracassado na missão.
Além da cara-de-pau de conseguir tomar cafezinho com o investigado sem que ele desconfie, Lucilene tem outra vantagem que lhe ajuda na profissão. É dada a sonhos. E tem até medo deles.
– Às vezes eu nem tenho dica do que está acontecendo em um caso, aí tenho um sonho e aquilo me desperta.
Lucilene acha que daria uma boa psicóloga. Não basta ter de negociar o preço de um serviço com uma cliente para mandar um detetive seguir seu marido. É preciso confortá-la, ter paciência com os choros e dramas. Sensibilidade.
Nos fins de semana, quando o marido e os dois meninos mais velhos se reúnem para jogar futebol, o passatempo de Lucilene é fazer compras, ir ao cabeleireiro (já resolveu casos fazendo escova, com os filhos junto), freqüentar a igreja evangélica e pegar na locadora filmes de mistério e traição.
Ela sabe que Marco Aurélio disfarça para vigiá-la. Mas também ela está sempre com olhos abertos.
– A gente sabe quando é serviço e quando não é. De vez em quando, tenho que botar umas alunas pra correr. Quando chega uma que cumprimenta ele e não me cumprimenta, pô, já fico meio assim. Eu dou liberdade, mas tem limites. Se tem indícios, dou uma rastreada, olho o celular dele, assim como ele olha o meu. Quando não tem nada de mais, a pessoa recebe a mensagem ou o telefonema e depois joga o celular em qualquer lugar. Mas se não tira o telefone do bolso e atende com medo... Aí tem.
– Quem procura acha?
– Quem procura acha... Se eu quiser eu acho. Eu vou atrás. Nunca fiquei com uma dúvida.
– Você já foi enganada alguma vez na vida?
Silêncio.
– Traída, já – revela Lucilene, disfarçando o que quer que esteja sentindo com um sorriso. – A maioria dos homens... Todos são! Não que seja por parte dele, mas você vê que a pessoa tá atrás, insistindo. E homem cai mesmo. Homem é fraco.
A atitude de Lucilene se assemelha à de muitos clientes que procuram o Iudep. Não são raros os casos de perdão. Os investigadores chegam a essa conclusão pela quantidade de clientes que descobrem uma traição e, anos depois, procuram o instituto novamente, para seguir a mesma pessoa.
– Se você dá uma chance e a pessoa endireita... Mas se você perdoa uma vez e perdoa a segunda, aí já é sacanagem, já estragou tudo. Errar é humano, eu casei muito novinha, ele também.
– Isso te marcou?
– Ah, marca, né? Acaba ferindo a mulher. Isso até facilitou para eu cuidar de outros casos. Sabe, todos traem.
Lucilene compartilha a teoria de que os infiéis são, em geral, os mais ciumentos.
– Quando a pessoa joga muito para cima do outro, é porque ele mesmo faz errado e está tentando se esconder.
– Você põe a mão no fogo por você?
– Não ponho minha mão no fogo por ninguém – responde Lucilene, com uma alta gargalhada.
– Acha que seu marido seria capaz de colocar uma escuta na sua bolsa?
– Ah, seria! Num sei se já fez.
– E você? Faria?
– Se precisasse, sim. O que não gosto é de falta de palavra. Se meu marido quer sair, ele tem que dizer: “Olha, vou sair com fulano, vou chegar tarde”. Mas se disser que está indo embora e não chegar, pô, isso me mata. Nem que seja para falar: “Estou num bordel!!!”.


Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


Filha pródiga
Foi Marco Aurélio quem descobriu que a irmã Carla, então com 16 anos, tinha arrumado seu primeiro namorado. “Um velho”, teria relatado ao pai, cumprindo seu papel de irmão protetor. Marco a havia flagrado entrando no carro do “velho” na saída da escola. Mas Evódio, ao contrário do que Marco talvez esperasse, não proibiu o namoro. No entanto, o rapaz teve de ir até a casa dos Souza se apresentar. O namoro durou quatro anos.
– É muito louco fazer parte de uma família de detetives – define Carla, com uma risada nervosa. – Eu desconfio de tudo!
Aos 35 anos, separada e mãe de Tainá, de 9 anos, Carla está sentada atrás da mesa de madeira simples, o maior luxo na sede do Sindicato Nacional dos Detetives, a poucos passos da sala onde seu irmão Marcelo e o pai trabalham.
Os traços lembram um pouco os de Marco Aurélio. Ela tem os cabelos castanho-escuros, compridos e lisos, que deixam entrever uma argola em cada orelha. No rosto moreno e miúdo, os olhos pretos e vivos se fecham de vergonha ao rir da própria sorte. A todo momento, busca o olhar da amiga Ellen, que a está visitando naquela tarde.
O telefone não pára de tocar.
– Você pode me ligar daqui a 20 minutos que eu vejo para você, querida?
E a elétrica Carla, unhas bem pintadas de escuro e com um solitário no dedo, põe o fone no gancho. Faz tempo que não vai para a rua.
– Não gosto de fazer campana fixa, prefiro seguir as pessoas de carro. Ultimamente não tenho feito, porque vendi meu carro pra reformar minha casa. Ahahaha...
Carla vive com a filha no mesmo quintal dos pais, embora em casas diferentes. Como os outros irmãos, cresceu no escritório de Evódio e começou a trabalhar com o pai depois que ganhou o próprio carro.
Parecia natural que seguisse aquela carreira, protegida pelo prestígio do detetive Souza. Mas em 1989, Carla quis fazer diferente. Resolveu se afastar das investigações e arrumou um emprego na Caixa Econômica Federal. O namorado também não queria que ela trabalhasse longe das vistas do pai, e o relacionamento degringolou.
Carla recorda a incompreensão do pai, quando ela lhe contou seus planos.
– Quanto você vai ganhar? Eu te pago o dobro para você ficar.
A proposta de Evódio não seduziu Carla. O patriarca insistiu:
– Você não precisa trabalhar para os outros.
A frase ecoou nos ouvidos de Carla durante os dois anos em que trabalhou no banco. Até que deu o braço a torcer. O pai tinha razão.
– Eu até gostava da Caixa, mas cansei. Vi que não sirvo mesmo para ser empregada dos outros – diz Carla, para emendar em seguida, sob as risadas de consentimento de Ellen, que queria mesmo era ter vida de dondoca.
Mas a dondoquice fica só nos sonhos. Quando está na rua, Carla até se arrisca. Uma vez, estava seguindo o marido de uma cliente quando o viu entrar com uma mulher em um motel. Como era de praxe, telefonou para a cliente, passou o endereço. A mulher apareceu transtornada, com a família inteira junto – mãe, irmã, dois cunhados.
– Ele tá aí – disse Carla, na frente do motel, já se preparando para sair de cena.
Mas a mulher implorou que ficasse. A irmã da cliente estava nervosa, tinha medo que alguma tragédia pudesse acontecer. Então Carla ficou com o grupo na frente do motel. Quando viu o marido sair da garagem com a amante, a mulher se jogou na frente do carro. O marido, nervoso com o flagrante, acelerou, quase atropelando a esposa.
– A cliente entrou no meu carro e falou: “Segue ele!”. Poxa, quando a cliente chega ao local do flagrante o detetive tem que ir embora! Só fiquei lá por consideração. Peguei e fui atrás.
Em alta velocidade. Carla ainda conseguia avistar o carro do marido de sua cliente quando, de repente, decidiu encostar da guia.
– Falei que não iria fazer aquilo. E se ele mata a gente? Não, não, parei. Ainda deixei a mulher em casa, ela tinha ido de táxi... Depois, meu pai disse que fiz bem.
A profissão tornou Carla uma mulher desconfiadíssima do sexo oposto. De cada dez pessoas, Carla só acredita em uma. A mãe, Ana Maria, quando não ajudava o marido nas campanas, também tinha suas dúvidas.
– Eu lembro de quando a gente era pequeno e minha mãe colocava eu e meus irmãos no carro para ir atrás do meu pai – diz Carla, com um sorrisinho no canto da boca.
Porém, ela se considera mais prática.
– Não perco o meu tempo seguindo. Com meu ex-marido foi assim, pelo telefone. “Se você não está me traindo, chegue cedo!” Não chegou, tchau. Se tem alguma coisa errada, não vou ficar fingindo. E outra, ninguém é 100% sincero. Eu não sou!
Ellen dá risada.


Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


O tio bravo
No meio do escritório vazio da FBI, um homem magro, de cabelos castanhos anelados e vestindo casaco de lã azul, calça e sapatos escuros, levanta-se num pulo da mesa onde está trabalhando. Através dos óculos de aros finos, seu olhar é gelado. Afasta. A visita inesperada no meio da tarde parece indicar problemas à vista.
– Por favor, eu gostaria de falar com o Marcelo - digo.
– ...Você, quem é?
– Sou jornalista. Foi o irmão dele, Marco Aurélio, quem me passou o endereço daqui.
– É... Você já falou com o pai dele?
– Sim, o detetive Souza. Ele está?
Silêncio.
– Não, ele saiu.
– Ah, sei... E o Marcelo, volta hoje?
– Marcelo sou eu.
O segundo filho de Evódio – e o tio mais bravo da família, segundo Marquinho – pede que eu volte em meia hora. Precisa terminar um relatório.
Quando retorno, ele pede que eu espere na ante-sala da FBI. Alguns minutos depois, ele aparece, pergunta se vai demorar e se senta na ponta de uma cadeira, para responder às perguntas quase com monossílabos.
Rapidamente, Marcelo dá suas curtas respostas: começou a trabalhar com o pai aos 14 anos, em 1982; já fez, sim, muitos casos, mas não tem paciência para fazer campanas; há entre 100 mil e 150 mil detetives cadastrados na FBI, para quem eles repassam os casos, de acordo com a localidade onde devem ser resolvidos e o endereço do investigador autônomo; sim, é desconfiado; tem cinco filhos; cresceu lendo livros que seu pai lhe dava, de Sherlock Holmes às aventuras de Dicky Uínchester.
Solícito, Marcelo vai até a estante, pega um exemplar entre os fascículos do pai e me oferece. Agradeço. É a senha para ir embora. Até porque Evódio acaba de chegar e, após um breve aperto de mãos, sem dar conversa, vira-se de costas e dá rápidas orientações ao filho, com sua voz de filme antigo. Movimenta com solenidade uma das mãos, onde, reparo, há um anel dourado com uma pedra vermelha. Marcelo tem os mesmos traços do pai, embora os olhos sejam mais claros.


Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


Brinquedinhos
Evódio sempre quis ter os filhos por perto. Mantê-los entretidos com o trabalho em sua agência de investigações era uma maneira de evitar que perambulassem na companhia de maus elementos, o maior medo daquele pai acostumado às maldades do mundo. Ainda crianças, Marco Aurélio e Marcelo já se debruçavam sobre casos, equipamentos e relatórios.
Mas Denison, o filho homem caçula, começou a freqüentar a agência do pai quando tinha idade apenas para subir na mesa e jogar papéis pela janela. Era grudado com Evódio, queria sempre acompanhá-lo aonde quer que fosse.
O prédio onde hoje fica o Iudep de Marco Aurélio durante mais de 20 anos foi endereço da Central Única dos Detetives, administrada até então por Evódio. Sempre que vai até o edifício Jayme Loureiro visitar o irmão mais velho e entra em um dos elevadores pantográficos que rangem no abrir e fechar manual das portas, Denison se sente voltando para casa. De fato, o edifício projetado pelo renomado arquiteto Ramos de Azevedo, inaugurado 80 anos antes, em 1927, tem uma aura de mistério, reforçada pelo labirinto de corredores silenciosos que levam ao conjunto do Iudep. Lá, alguns andares acima, Denison passou dias felizes de sua infância ao lado do pai.
Os equipamentos de espionagem que Evódio trazia eram brinquedos incríveis. Em cinco minutos, o menino já sabia operar perfeitamente o aparelho, era capaz de desmontá-lo todo. Já crescido, seu fascínio pela profissão consistiria nas possibilidades da tecnologia.
– Não tenho paciência para seguir uma pessoa... E hoje em dia é praticamente impossível seguir alguém de carro. Tem que ser de moto. Normalmente, os detetives andam com uma tira em volta do pescoço, com a filmadora no peito. Se descem da moto, colocam a micro-câmera dentro do capacete e continuam filmando. Mas também existem filmadoras que cabem até num maço de cigarros.
Denison fala sobre os equipamentos com uma empolgação juvenil, descontraído e sorridente. Talvez seja uma versão mais alegre de Marco Aurélio ou mais serena de Carla, embora fisicamente se pareça com os dois – Denison também não é alto, tem a pele clara e os cabelos bem curtos. Embora tenha passado a infância apegado ao pai, hoje Denison trabalha com a mãe na Central Única dos Detetives, um conjunto de salas que fica quatro andares abaixo de Evódio, passado para o controle da mulher quando Evódio criou a FBI. A propósito, Ana Maria, a avó detetive misteriosa, não está.
– Não é que eu e meu pai tenhamos nos distanciado... Mas eu recorro a ele sempre que tenho alguma dificuldade.
Além da experiência profissional, os dois compartilham o gosto por carros. Evódio é apaixonado pelo espaçoso e imponente Landau - já teve várias versões ao longo das décadas. Sabendo disso, nem bem o caçula dos três homens havia chegado à adolescência, recebia de presente do pai um carro próprio, para fazer o percurso de quatro quilômetros até a escola onde estudava. Denison tinha apenas 13 ou 14 anos.
Foi justamente a paixão por carros que fez o rapaz abandonar temporariamente o ramo da família. Entre 1994 e 1998, quando pensava que ser detetive havia sido apenas um divertido passatempo, Denison teve uma loja de rodas e pneus. Mas, como se a profissão de detetive se impusesse como uma sina, acabou desistindo do comércio.
– O negócio não deu certo. Voltei por falta de opção.
Quando fala de música, os olhos do presidente do fã clube da banda de rock Ira! – como atestam os recortes de jornais com fotos da banda pendurados atrás de sua mesa – brilham. Mas um raio de impaciência muda sua feição quando alguém começa a fazer perguntas demais sobre o ofício.
– Pelo fato de a família inteira estar nesse ramo fica um pouco saturado. Claro que não é pra todo mundo que eu falo o que faço da vida. Mas quando têm intimidade, as pessoas começam a perguntar e eu falo: “Pára, vamos mudar de assunto.”
Nas reuniões de família, é inevitável. Sempre alguém começa a falar de um caso com problemas, um caso que deu certo. E a opinião de Evódio não falta.
– Meu pai é muito inteligente. Pra tudo ele tem resposta.
O semblante tranqüilo, que destoa do resto da família, esconde a mesma faceta psicológica.
– Nesse meio você vê tanta coisa errada que acaba tendo receio de golpe, traição. Mas isso é muito relativo. Tem pessoas que nem são detetives e desconfiam de tudo. Eu sou bem desconfiado mesmo, principalmente de estranhos. Dentro da família, não... Até conseguimos fazer amigo secreto no Natal. Ninguém tem bola de cristal.


Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


Os Sherlocks
Evódio nega, enche a boca para dizer que os filhos sempre foram exemplares. Mas Marco Aurélio tem lembranças do pai escondendo equipamentos de escuta no quarto dos filhos para descobrir as bagunças que aprontavam. Quando tinha 17 anos, por exemplo, na época do alistamento militar, Marco Aurélio disse a Marcelo:
– Vou ter que ir bem cedo pro quartel amanhã fazer exame médico, mas vou ficar na rua e voltar bem tarde para não ter que ir trabalhar com o pai.
Na manhã seguinte, cedo, quando Marco Aurélio se vestia para o compromisso militar – já esperando a farra com os amigos –, Evódio surgiu no quarto:
– Pode voltar cedo, que você vai trabalhar comigo hoje. Estou sabendo da sua trama.
Na infância, contudo, os gravadores do pai eram como brinquedos para Marco Aurélio. Diante da TV, ele assistia ao programa de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, e depois pegava o gravador e recriava as histórias imitando os “praticamieeeeente” e as nuances assustadoras do ator, trocando os nomes das vítimas pelos de seus amiguinhos de escola.
Muitos anos depois, o ídolo de Marco Aurélio o procurou no Iudep. Queria fazer aulas, como um laboratório de preparação para mais um filme. Acabou se tornando professor de interpretação para detetives na escola. Suas aulas são as mais disputadas pelos iniciantes. Nelas, os alunos aprendem uma das premissas do bom profissional: ser cara-de-pau.
Nesta manhã de sábado, porém, o professor não é Zé do Caixão – o artista só pode vir uma vez por mês. Mas os alunos que vão chegando e tomando conta da sala de espera e do entorno da mesinha de entrada não parecem menos empolgados com isso.
Uns sentam-se em silêncio na sala de espera e olham para o chão. Outros falam de equipamentos. Marco Aurélio vai chamando um a um dos inscritos ao escritório, e eles fazem o pagamento, assinam uma folha e escolhem um lugar na sala de aula que faria inveja a vários cursinhos pré-vestibulares, tamanha a quantidade de carteiras de um braço coladas umas às outras por metro quadrado.
– Hoje temos 28 alunos. Mas tem dias que faço mágica e coloco 40 aí dentro – diz Marco Aurélio, depois de encaminhar o último inscrito para a aula.
Uma das estratégias de marketing para atrair tantos alunos é das mais tradicionais do centro de São Paulo. Diante do prédio onde funciona o Iudep, na Rua Sete de abril, Esmeralda, uma negra que já passou dos 50 anos, vestida de lona amarela, chama atenção entre vários homens-sanduíche que compram ouro.
“Seja um detetive”, diz a inscrição que carrega. “Zé do Caixão recomenda. Forme-se e venha trabalhar conosco! Ambos os sexos. Futuro garantido. Fazemos investigações em geral. Venda de gravador automático para telefone, menor preço do mercado.” As informações se espremem no folhetinho que cabe na palma da mão. Não são poucos os que se interessam, ela garante.
E são todos muito diferentes uns dos outros. A maioria são homens, de várias idades, embora haja algumas mulheres, entre elas uma loura de batom vermelho, jóias douradas e roupa com estampa de oncinha. São gordos, baixos, magros, brancos, pardos, negros. Há um casal de adolescentes orientais, com os fios brancos do iPod saindo das orelhas. Um grandalhão de cabelos grisalhos e olhar de agente secreto, um rapaz de bigodinho que quase some dentro da jaqueta. É como se tivessem colocado ali um vagão cheio do metrô.
Muitos estão ali por curiosidade. Mas há aqueles que ainda não têm uma profissão definida e buscam uma entrada rápida e facilitada no mercado de trabalho. Ou até mesmo, querem adquirir conhecimento para aplicá-los sabe-se lá como. Fernando Dutra Pinto, que invadiu a casa do apresentador Sílvio Santos em 2001, foi um dos alunos do Iudep, como veio à tona depois que o seqüestrador foi morto na cadeia. Mas Marco Aurélio não consegue se lembrar do aluno. São muitos.
Para fazer o curso de detetive presencial do Iudep, com 8 módulos de duas horas, basta saber ler e escrever. Como é um curso livre, não pode discriminar ninguém. Muitos presidiários escrevem a Marco Aurélio querendo informações sobre o curso.
Quem se forma é cadastrado e pode ser chamado para trabalhos. A diária de um detetive no Iudep chega a R$ 400 – metade fica com a empresa. Mas nem 10% deles têm condições de continuar como colaboradores da empresa.
A aula vai começar. Quem entra em cena é um sujeito baixinho, de pele castigada pelo 64 anos de vida, cabelo e bigode brancos. Usa óculos escuros, camisa alaranjada aberta alguns botões, deixando entrever uma corrente de ouro. Faltaria uma cerveja em sua mão. É o detetive Vila, como prefere se identificar o investigador da Polícia Civil que há mais de 30 anos complementa a renda com seus serviços secretos.
O primeiro detetive particular do mundo de que se tem notícia, a propósito, surgiu como uma alternativa no combate à criminalidade de Chicago. Dirigente sindical escocês, Allan Pinkerton emigrou para os Estados Unidos por volta de 1850. Inicialmente, montou uma pequena oficina de reparos de tonéis de carvalho, usados no envelhecimento de bebidas. Mas, diante de índices alarmantes de criminalidade que assolavam a Chicago daqueles anos, o escocês teria reunido alguns conterrâneos e fundou a Agência Nacional de Detetives Pinkerton. A idéia era trabalhar paralelamente à polícia.
A profissão escolhida pelos alunos que estão diante do detetive Vila é legal. Eles não sabem, mas foi o pai de Marco Aurélio, o detetive Souza, um dos que mais lutaram pela regulamentação da profissão de detetive particular no Brasil.
Durante os anos da ditadura militar, Evódio, o detetive Gama e os outros poucos investigadores particulares de São Paulo não saíam das dependências do extinto DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) da polícia civil paulista. Os detetives eram acusados de usurpação de função pública e ameaçados de prisão. Foram várias decisões judiciais até que, em 16 de junho de 1978, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa aos detetives, impedindo, a partir de então, qualquer interdição ao exercício da profissão.
Mas não é sobre isso que o detetive Vila vai falar. Ele vai ensinar os traquejos da profissão.
– Vocês são todos medrosos. O detetive particular tem que ser pilantra, sem vergonha. Não na nossa casa, mas por aí... A não ser que você seja lindão. Eu, como sou um trouxa, dou uma notinha aqui, outra ali. Não posso decepcionar o cliente que me contratou! Pô, mas vocês não fazem pergunta?
– Tenho minha primeira pergunta - manifesta-se uma mulher de uns 40 anos, cabelos castanhos – Qual o tema da aula de hoje?
– Não tem! Aí é que tá!! Vim “ao Deus dará”!!!!!
Os alunos dão uma risada nervosa.
– Posso fechar um contrato sem que o cliente saiba que o detetive sou eu? – Alguém pergunta.
– Faça o contrato preto no branco. Eu normalmente costumo fechar em cinco dias. E se eu descobrir no segundo, eu espero pra falar só no quinto dia. Só assim pra gente ganhar dinheiro.
E Vila vai contando suas histórias e arrancando gargalhadas, da vez em que bancou o travesti para desvendar um esquema de tráfico de cocaína em uma boate – e acabou despertando a paixão de um alemão – ao período em que se disfarçou de faxineiro de uma tradicional universidade particular para investigar alunos que vendiam drogas. Noções de datiloscopia e grafotécnica vão sendo lançadas superficialmente.
– Tem que ter sorte. E se vocês não rezam, comecem a rezar. Deus atende. Joga um papo. Vai na humildade. Você não pode ser prepotente e metido. Nós precisamos das pessoas.
A aula acabou. Vila deixa o telefone. Um rapaz no fundo da sala é o último a sair. Demora-se a copiar o número que o professor deixou. Desenha cada um dos oito algarismos, e se percebe que não está habituado a pegar em uma caneta.


Os desconfiados: uma família de detetives
Mariana Bittencourt Faraco *


Almoço longo
Quarta-feira, 14h em ponto. O Iudep nunca pareceu tão silencioso. Marquinho, Marco Aurélio Júnior, está sentado na mesinha de frente para a porta, olhando para o infinito. A recepcionista saiu para almoçar, e ele tem de ficar ali, sozinho, tomando conta da escola, entediado como um adolescente arredio em uma aborrecida festa de família, a esperar que alguma tia lhe venha apertar a bochecha. Qualquer tentativa inicial de conversa resulta em simples monossílabos.
É o rosto da mãe no corpo do pai. Mas, fora os traços, Marquinho não parece compartilhar mais nada com eles.
O telefone toca estridentemente. Ele não espera pelo segundo toque.
– Iudep, boa tarde. É Marco. Não, é o filho dele. Você quer fazer o curso? Eu lhe enviaria um folheto com as informações... – O office boy fala no futuro no pretérito mesmo, polido e articulado como o pai.
Marquinho olha nos olhos. Aos poucos, a timidez desaparece e as respostas surgem, entremeadas por longos silêncios.
– Não acha legal a profissão dos seus pais?
Ele demora, faz silêncio, e então dispara, desafiante:
– Não.
E atende o telefone, que toca de novo.
Não, não quer ser detetive. Pensa em seguir uma faculdade, talvez Educação Física. O filho do corintiano detetive Marco Aurélio é palmeirense, como a mãe. O gosto por jogar futebol o une ao pai e ao irmão nas peladas de todo domingo.
Os pais estão mais tranqüilos agora que Marquinho está namorando firme e já não quer sair tanto. Mas ele tem consciência de que já deu muita dor de cabeça a Marco Aurélio e Lucilene.
– Agora eu tô estudando à noite. Vivo esfregando o olho, com sono. Eu durmo por aí, no sofá. Já fui convidado a me retirar de duas escolas. É, expulso. Uma vez eu fui a um passeio bêbado. Era no Clube Corinthians, eu sou sócio de lá. A diretora ficou sabendo que eu bebi e me deu advertência. No outro dia, ela não queria que eu ficasse lá. Aí chamei o segurança do clube e expliquei que eu era sócio. Quando a diretora veio me expulsar, chamei ele. Aí ele disse que sócio tinha preferência. Ha, ha, era mais fácil EU expulsar a diretora de lá! Todo mundo ficou rindo dela.
Marquinho diz que não foi o único que bebeu naquele dia. Seus amigos também encheram a cara, mas ele assumiu a culpa sozinho. Seus pais nem devem saber disso.
Numa das vezes em que foi expulso, Marquinho havia soltado no colégio uma bomba, dessas que se compra em lojas de fogos de artifício.
– Fez um barulho que parecia tiro.
Outra vez, numa época em que o pai vendia sprays de pimenta aos aspirantes a detetive, Marquinho surrupiou alguns frascos.
– A aula tinha seis tempos. Eu assistia aos três primeiros, normal, depois eu soltava o spray embaixo da mesa. Todo mundo tinha que sair da sala de aula, por causa da irritação nos olhos. Aí a gente ficava no corredor até passar, conversando, fazendo bagunça. Uma vez eu soltei bastante mesmo. Avisaram que iam revistar as mochilas de todo mundo e me pegaram. Ah, meu pai ficou bravo, né? Normal.
Marquinho se sente mais à vontade falando das coisas que já aprontou do que sobre o estigma de sua família. Parece se incomodar com a curiosidade dos outros.
– Você acharia estranho se sua família fosse de detetives? Eu acho normal. Meus amigos acham interessante, alguns até já vieram fazer o curso. Eu, não.
Já se esquivando, ele deixa escapar:
– A gente sempre soube que os telefones lá de casa podiam ter grampo. Eu agora só ligo do celular.
Insisto:
– Mas é que é inusitado. É coisa de quem está de fora. Você poderia achar a minha família curiosa, por exemplo.
– Por quê? Sua família também é toda de jornalistas?
Ok, Marquinho venceu. Chega de perguntas.
A recepcionista reaparece. Não é mais a mocinha loira de dentes espaçados. Aquela foi demitida na semana anterior. Esta é uma morena de sorriso e brincos grandes, ar de eficiente, que já trabalhou lá antes. Chama-se Lucimeire.
– Uma hora e quinze almoço? – Dispara Marquinho, olhando o relógio.
A mocinha se defende, rindo e colocando a bolsa sobre a mesa.
– Ué, até ser atendida, escolher a comida...
A explicação não convence o garoto.
– Em uma hora e quinze daria pra você comer cinco pratos.
A garota não retruca. Sem dizer mais nada, Marquinho se levanta e desaparece no interior do escritório. Desconfiado.


* Jornalista, redatora do caderno Metrópole de “O Estado de S. Paulo” e pós-graduanda em Jornalismo Literário pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário), turma de São Paulo (SP), 2007.

 

 

O mercado de trabalho para os profissionais da área de investigação voltou a crescer neste ano. Apesar de o Brasil ser um dos países mais carentes em detetives particulares - em São Paulo somente 1% dos 50 mil profissionais atuam no campo - houve um aumento na procura desses serviços, segundo o presidente da Associação dos Detetives Particulares do Brasil (Aprodepab), Evódio Eloísio de Souza, de 55 anos.
"Há quatro anos, a procura pelos serviços de espionagem sofreu uma queda, mas em fevereiro deste ano houve um aumento de aproximadamente 10%, revelou.
Embora o número de detetives ativos não tenha crescido significativamente nos últimos anos, a investigação - serviço que existe há 36 anos no País - é muito procurada até hoje, principalmente pelas mulheres. O diretor do Instituto, Marco Aurélio de Souza garante que a carreira já levou profissionais de outras áreas e trocarem de emprego. "Há tres anos policiais civis começaram a mudar de carreira ou adotarem a investigação como uma segunda alternativa de trabalho, principalmente por dar um bom retorno financeiro", garantiu.
Um detetive particular, que trabalha em média oito horas, chega a atingir um rendimento diário de R$ 300,00.
A infidelidade conjugal é uma das missões mais requisitadas, chegando a atingir 50% dos casos. A contra-espionagem também esta entre os serviços mais procurados.
Souza disse ainda que o Departamento de Investigação, ligado ao Instituto, recebe pelo menos 4 casos de contra-espionagem por dia. "No final de cada mês, atendemos mais de 40", afirmou.
O mercado de trabalho, que tem como público alvo pessoas entre 30 e 40 anos de idade, abriga em São Paulo aproximadamente 40 agências de detetives.
Curso tem duração de 60 dias
Aventura e Mistério são os elementos primordiais para quem deseja seguir a sua carreira de detetive particular. Para tornar-se um profissional em investigação e espionagem é preciso muita disciplina.
Marco Aurélio conta que o IUDEP, forma em média 1.500 alunos por ano, para ingressar nessa área, o interessado precisa pelo menos ser alfabetizado. "O candidato que tiver facilidade de assimilação poderá se transformar em um grande detetive", ressaltou Souza.
Durante o curso, que tem duração de 60 dias e pode ser feito por correspondência, o aluno terá aula de medicina legal, sigilo profissional, fotografia, eletrônica e ainda irá aprender a manusear equipamentos como micro-câmeras, filmadoras, binóculos e transmissores (apetrechos de escuta). O futuro detetive aprenderá ainda técnicas de investigação, como fazer campana e descobrir o paradeiro de pessoas desaparecidas.
Depois de terminar o curso, além de receber o diploma, o candidato também irá possuir uma carteira de identificação profissional. Os alunos mais aplicados serão indicados para agências de detetives e ao próprio Departamento de Investigação do Instituto.
Os interessados em saber mais sobre o curso deverão entrar em contato com Instituto através do telefone , Fax ou email.

 

 

Curso de detetive ensina atividade bem remunerada.
A profissão de detetive envolve mistério e faz lembrar personagens famosos, como Sherlock Holmes. Também lembra casos de infidelidade conjugal e espionagem, duas das principais atividades do profissional. Tornar-se um detetive particular exige, além de astúcia, muita disciplina que podem ser assimiladas até mesmo através de cursos por correspondência.
Formar esses profissionais é especialidade da IUDEP, que reúne hoje aproximadamente 58 mil associados de todo o país. Entidade coligada à Associação Profissional dos Detetives Particulares do Brasil (Aprodepab), o Instituto oferece cursos a distância, com a possibilidade de aulas ao vivo para os alunos da Grande São Paulo. Aos sábados são oferecidas orientações para quem deseja um reforço ao material didático.
Marco Aurélio de Souza, diretor do Instituto, explica que durante as aulas os instrutores fazem demonstrações dos principais apetrechos utilizados pelo detetive, como o binóculo, máquina fotográfica e microfone. A participação não é obrigatória, mesmo porque a aula é oferecida em São Paulo, o que dificulta a vida de quem mora em locais distantes da capital.
No ato da matrícula, o interessado recebe todo o material didático para estudar em casa. O diploma é conseguido mediante a realização de uma prova, que também pode ser enviada pelos Correios. Segundo Souza, o prazo médio para formação do profissional é de 60 dias, se ele estudar pelo menos uma hora por dia.
Durante o curso, o futuro detetive particular aprende técnicas de investigação, contra-espionagem, como fazer campanas, seguir pistas e descobrir o paradeiro de pessoas desaparecidas. Também são dadas orientações gerais sobre comportamento e ética profissionais.
Segundo o diretor do Instituto, as questões conjugais são as que mais motivam as pessoas a recorrerem a um detetive. "Há alguns anos atrás, os homens contratavam mais detetives. Hoje, são as mulheres que estão mais desconfiadas, inclusive com dúvidas quanto o comportamento dos amantes", garante Souza.
Ele lembra que os melhores formandos do curso são contratados pelo próprio Instituto, que também realiza investigações. A opção da maioria dos profissionais é abrir seu escritório, que pode proporcionar bons rendimentos: um detetive cobra, em média, R$ 200,00 por hora. A chave para um bom negócio é a propaganda. Outro aspecto ressaltado por Souza é a indicação. "Para um bom profissional nunca falta serviço", diz.
REGULAMENTADA
Para abrir um escritório os principais itens são uma sala e um telefone, além de registros na Prefeitura e na Secretaria de Segurança Pública. Apesar da formação ser realizada através de cursos livres, a profissão é devidamente regulamentada desde 1961.
O detetive particular ganhou no ano passado até um dia em sua homenagem, comemorado em 26 de julho. O projeto , de autoria do deputado Afanásio Jazadji, foi aprovado mediante justifica de que o profissional é um profissional importante, até mesmo para a própria Polícia.
Quem deseja maiores informações sobre a profissão e os cursos pode entrar em contato com o IUDEP através dos telefones/emails ou pessoalmente.

 

 

Pais que espionam os filhos.
Famílias contratam detetives particulares para descobrir se jovens usam drogas.
Qualquer família entra em desespero quando descobre que um de seus membros se envolveu com drogas. Não há receita fácil para lidar com essa situação dilaceradora. Pior ainda é decidir o que fazer quando não se sabe e apenas desconfia. Uma solução drástica está se tornando comum entre as famílias de classe média: contartar um detetive para tirar essa dúvida a limpo. Investigar jovens de classe média para saber se há envolvimento com drogas é hoje serviço mais solicitado às agências de detetives particulares, atrás apenas dos casos de infidelidade matrimonial. A maioria da clientela mora em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mas também há demanda pelo serviço no Espírito Santo, Brasília, Bahia, Paraná e Rio Grande do Sul. A investigação é simples, na maioria das vezes. Os detetives seguem o jovem desde o momento em que sai de casa até a hora em que retorna. Em alguns casos, grampeiam os telefones da casa, vasculham os e-mails do investigado e usam disfarce para se aproximar de seus amigos.
A suspeita dos pais é confirmada em 90% dos casos. "Geralmente eles já sabem que o filho usa entorpecentes", diz Rafael Gomes, da agência Márcia e Rafael, do Rio. "Os clientes querem apenas provas concretas, como fotos e vídeos, para enconstar o filho na parede", diz ele. Os investigados em geral têm entre 13 e 20 anos, pertencem à classe média alta e compram drogas diretamente em favelas, botecos, lanchonetes da periferia e até dentro do próprio colégio em que estudam. Em um caso, uma agência instalou uma microcâmera no banheiro do cliente. A mãe tinha encontrado resíduos de pó na pia e no espelho e desconfiou que o filho consumia cocaína. Muitas vezes, o adolescente é flagrado entrando numa favela da periferia. "Ele fica olhando para os lados e andando rápido, com medo de que descubram que está fazendo algo de errado", conta Lucilene Victório, chefe do departamento de investigação do Instituto Universal dos Detetives Particulares, em São Paulo. Em Brasília, é mais freqüente que a droga seja comprada dentro da escola. "São alunos que adquirem grandes quantidades de traficantes e distribuem entre os colegas".
A investigação dura, em média, duas semanas e o preço é salgado: varia de 400 a 600 reais por dia. "Desvendamos o caso com rapidez porque nenhum viciado consegue passar mais que duas semanas sem usar drogas", diz Gomes, da Márcia e Rafael. Quando os pais decidem colocar um investigador atrás do filho é porque a situação familiar chegou ao limite. O jovem vai mal na escola, abandonou os amigos e a namorada, vive irritado, briga com os pais e tem insônia. Ainda assim, nem sempre o resultado é o melhor."Se o filho não usar drogas e descobrir que está sendo seguido, o relacionamento com os pais desabará de vez", afirma a educadora Tânia Zagury, autora de vários livros sobre adolescentes, entre eles Adolescente por Ele Mesmo, da Editora Record. "Mas, se não existir diálogo na família, o filho só vai admitir o problema diante de provas." Para o pesquisador paulista Içami Tiba, especialista em adolescentes, essa é a melhor forma de tentar salvar o jovem viciado em drogas."Nem todos os drogados têm cura", diz Tiba. "Portanto, quanto mais cedo se descobrir o vício, seja por qual método for, melhor."

 

 

Trabalhando na Surdina e disfarçados, os detetives adoram o perigo e se tornam a salvação dos desconfiados de plantão - Leda Rosa
Eles são os exterminadores da privacidade alheia. Durões e caras-de-pau, não desistem até conseguir seu objetivo. Os detetives particulares são uma categoria muito bem paga, que tem como maior prazer desvendar os segredo dos outros. Mesmo que para isso tenham de bancar os gays ou tomarem facadas no nariz. Mostram a verdade nua e crua a quem os contrata. Foi assim com a dona de casa M.F, que descobriu que o marido tinha, além da amante, uma filha. Ultimamente, um numero cada vez maior de pais vem contratando detetives que investiguem seus filhos. Objetivo: descobrir se os adolescentes estão envolvidos com drogas. Para os Sherlock Holmes modernos, o único inconveniente da profissão é que a desconfiança costuma tomar conta do cotidiano. Os detetives passam a suspeitar até da própria família.
" Não tem jeito, vi tanta coisa nesses anos de profissão... Desconfio da minha sombra", admite Angela Bekeredjian, com 33 anos de experiência e uma das detetives mais famosas da cidade. Filha de pai militar, Angela nasceu em Barcelona, na Espanha. "O regime de minha família era muito rígido na minha infância. Isso influenciou minha escolha pela profissão de detetive, que me dava mais liberdade, bons ganhos e contato freqüente com pessoas diferentes", explica ela, em frente a uma parede enfeitada com diplomas emoldurados. Eles comprovam que Angela se formou em Psicologia, fala seis idiomas e fez cursos de balística, grafologia técnica, técnicas antisequestro e escolta. Como se não bastasse, outros certificados atestam seu bom desempenho nos cursos de música clássica, dança flamenca e teatro. " O bom detetive não pode ser notado pela pessoa que está sendo seguida. Muitas vezes precisamos nos disfarçar de acordo com o local. Esses cursos voltado para o lado artístico ajudam a nos desinibir", explica ela, que perdeu a conta dos personagens que precisou interpretar. "
Já fiz de tudo. De gari a médium incorporando "Preto Velho", conta, soltando uma de suas gostosas gargalhadas. Uma igualzinha foi dada por Angela durante um flagrante de adultério. " Não conseguia parar de rir quando a minha cliente, uma moça muito bonita, que tinha sido miss, entrou no quarto de sua casa e comprovou sua desconfiança. Ela acendeu a luz e viu o marido transando com uma prostituta feinha que não chegava nem aos pés delas. A primeira coisa que ela berrou para o infiel foi 'Mas você não estava impotente, seu desgraçado?"', lembra a detetive que foi junto com a Polícia Militar, a cliente, o marido e a prostituta até a delegacia da região, lavrar o auto flagrante.
O adultério ainda é crime previsto no artigo 240 do Código Penal e constitui, em média, 70% dos casos investigados pelos detetives particulares. O casal de amantes costumas ser apresentado ao delegado exatamente como foi encontrado na hora do flagrante. É comum os amantes irem à delegacia cobertos somente com lençóis.
" Não sei bem porquê, mas o fato é que o membro dele demorou muito para perder a rigidez, o que só fez aumentar o ridículo da vestimenta com lençol e o ódio dela, que não se conforma. Ele afirma que era impotente, mas sempre que possível satisfazia sua tara, que era transar com prostitutas no quarto do casal. Pouco tempo depois de registrar o boletim de ocorrência com o flagrante, eles se separaram", recorda a detetive. " A maioria das pessoas que vão procurar um detetive por desconfiar de traição já está com o casamento acabado. São pessoas que tentaram de tudo, do macumbeiro ao tarô, e nada funcionou. Somos a última opção", diz Angela, coçando a cicatriz no nariz, resultado de uma facada que levou de um marido infiel. " Quando ele descobriu que ela já sabia de tudo e que eu era a responsável por isso, veio para cima de mim, completamente louco. Se eu não fosse esperta, ele teria me passado a faca no pescoço de um lado a outro", diz, tranqüila, antes de ser interrompida pelo telefonema de um cliente. Enquanto fala no aparelho, Angela tira de um envelope várias fotos onde se vê uma mulher descendo de um carro e entrando em outro, onde troca beijos ardentes com um homem. Profissional , Angela fez o relato revelador. " Olha nós conseguimos estamos com as fotos da sua esposa aqui. Mostra bem direitinho. Calma. É eu sei como é duro. O senhor passa aqui às quatro da tarde? Então, ta, conversamos com mais calma", diz ela, séria, antes de desligar e passar alguns segundos quieta.
Angela adquiriu na prática boa parte da seriedade com a qual encara a dor da traição sentida pelos clientes. " O primeiro flagrante que dei na vida foi o meu mesmo. Peguei meu marido na cama com uma dona que se dizia minha amiga. Foi quando senti que tinha jeito para detetive. Depois, com os anos, descobri muitas outras traições dele", lembra, antes de sorrir para o ex-marido, Zacarias, que hoje a ajuda na administração da agência de detetives, que tem 12 agentes. Nós nos separamos, mas viramos amigos", diz, olhando para Zacarias, que sorri, envergonhado.
Perdão - A separação não é o fim para boa parte dos casamentos investigados por Angela. "Muitos se reconciliam, principalmente quando a mulher é a traída", diz. Não é o que acontece com os clientes de Elias Almeida, o Dudu, 33anos de idade e 15 de profissão. "A maioria opta pelo divorcio. Mesmo quando o casal tenta se reconciliar, a relação não dura mais que alguns meses. Para o homem é muito difícil perdoar, e a mulher, quando perdoa, acaba se vingando na mesma moeda", diz ele, que mantém em seu escritório no largo da Misericórdia, no centro, um sofisticado bar, repleto de diferentes marcas de uísques importados. As garrafas são mantidas no escritório para consolar os que se descobrem traídos.
"Quando comprovam a traição por meio dos relatórios, com fotos ou gravações telefônicas, os homens choram como bebês. As mulheres ficam histéricas, falando palavrões e gritando. Ambos precisam de uma boa bebida para se acalmar", conta, com um sorriso tranqüilo.
O bar dos traídos foi especialmente importante para acalmar um cliente que Elias jamais esqueceu. " O caso dele me marcou muito, porque era um homem muito carinhoso com a mulher e boa-pinta. Casados a dois anos, ele só saia de perto dela para ir jogar bola às sextas-feiras. Mas, para compensar a ausência, mandava flores em sua residência enquanto estava fora. Ele me procurou e nem chegou a dizer que estava desconfiado de alguma coisa. Disse que gostaria de conhecer um pouco mais a intimidade da mulher. Acabei descobrindo em conversas telefônicas que a mulher o traia justamente com o dono da floricultura durante os jogos de futebol", lembra.
"Sexualmente ela tinha um relacionamento normal com meu cliente, mas com o amante era uma coisa quase animalesca, cheia de fetiches e objetos de sadomasoquismo".
Quando apresentei o relatório ao marido, ele chegou a comentar, entre lagrimas e goles de uísque, que muitas vezes chegara mais cedo do jogo, mas, ao ver a perua da floricultura parada em frente ao prédio onde morava, ficava na padaria, dando um tempo para a mulher receber as flores e, sensibilizada, recebê-lo de forma ainda mais carinhosa", acrescenta Elias, com um sorriso cínico.
O mesmo cinismo ele exercitou em outra oportunidade, quando um noivo o contratou para vigiar sua noiva, uma semana antes do casamento. " Ele havia me contratado dois anos antes, quando eram namorados, e eu lhe revelei que ela dava uns amassos com um colega de faculdade. Voltou a me ligar às vésperas do casamento. Ele instalou na casa da moça os equipamentos de escuta telefônica que lhe vendi. Durante o período do nosso contrato, que ia de segunda a sexta, não houve nada de anormal. Mas no início da madrugada de sábado a noiva do meu cliente ligou para marcar um encontro com o amante em um motel da Marginal Tietê. O cara era o mesmo da época da faculdade. Poucas horas antes de ir para a igreja, ela ainda ligou para uma amiga e contou que nunca iria deixar de ver o amante, porque ele transava muito bem. Fiquei numa dúvida terrível, porque meu cliente não havia me contratado para trabalhar naquele dia. Só ouvi a conversa porque demorei a desativar a escuta. Pedi a opinião de amigos e até da família. Terminei assistindo ao casamento com a minha mulher, com a fita da gravação no bolso."
Namorados - Mas nem todo o cinismo do qual é capaz livrou Elias do desconforto que sentiu ao ter de bancar o gay, em um de seus primeiros trabalhos. "A mulher contratou a agencia na qual eu trabalhava para seguir seu marido, que não tinha mais o mesmo interesse sexual por ela. Fiz a perseguição com outro detetive. Seguimos o marido até o Centro. Num bar, ele se encontrou com os amigos e ficou junto de um rapaz mulato. Logo começaram a se beijar. Fizemos as fotos e vimos quando entraram em uma boate gay. Tínhamos de entrar e acabamos passando pelo porteiro de mãos dadas, como dois namorados.
Foi horrível. Pior ainda foi ter que ficar bem perto desse meu colega para ouvir o que o marido da minha cliente estava conversando com o amante, em um paredão onde os homossexuais ficavam se pegando. No fim, chamamos a cliente e ela desmaiou ao ver o marido, já na rua, no colo do mulatinho".
"Outro caso que tem crescido muito nos últimos anos é de pais que me contratam para seguir o filho, preocupado com o possível envolvimento com drogas. Atualmente esse tipo de trabalho ocupa 30% dos casos que investigo", revela Elias, que em 1997 foi contratado por um empresário que já era seu cliente. Ele começou a desconfiar do filho, que começou a gastar muito dinheiro. "O filho tinha 19 anos e fazia cursinho à noite. Eu o segui durante cinco dias e ele só foi às aulas no primeiro. Nos outros, passava na porta do cursinho, em Santa Cecília, pegava duas moças e dois rapazes e ia para Guarulhos, num local onde os adolescentes se reúnem, próximo `Faculdade da Vila Rosália. Ali eles compravam uns papelotes de cocaína e usavam. Filmei tudo e mostrei para o meu cliente que internou o filho", lembra Elias.
Elias é casado há cinco anos e pai de um menino.a desconfiança profissional acabou alcançando a mulher, ex-manequim. Elias prefere não revelar os nomes do filho e da mulher. "Quando ela liga dizendo que vai ao shopping passear fico de orelha em pé. Quase sempre acabo largando o trabalho para acompanhá-la " admite. "Certa vez segui durante 30 dias, uma mulher casada deslumbrante. O marido estava desconfiado porque ela não tinha mais interesse em transar com ele. Ela saía todo dia, um monte de homens mexiam com ela na rua, mas não dava bola para ninguém. Só ficava de loja em loja. Depois de um tempo chamei o marido para conversar. Perguntei como era o relacionamento dele com a mulher e ele disse que era normal. Aconselhei que ele fizesse com ela tudo o que sabia e praticava com outras mulheres. voltou seis meses depois, rindo de orelha a orelha, dizendo que o casamento estava uma maravilha".
Igreja - Outro que investigou vários casados e casadas fiéis foi Marco Aurélio de Souza, de 32 anos e detetive há 17. "Uma cliente me contratou há alguns anos para seguir seu marido, que havia começado a sair sozinho todas as noites e a usar ternos sofisticados. Na primeira noite, vi quando ele entrou em uma igreja evangélica famosa. Na segunda noite ele fez a mesma coisa e entrei junto, porque o encontro com a amante podia ser lá dentro", recorda Marco. Armado com uma filmadora, o detetive deu azar ao ser confundido com um repórter da TV Globo, emissora que na época travava uma briga acirrada com a congregação evangélica. Cercado pelos fiéis, tomou muitos tapas e empurrões. " E todas as noites ele voltava à igreja. Uma semana depois disse para minha cliente que ele não tinha outra mulher mas sim uma nova religião. Em pouco tempo ele contou tudo a ela e a convidou para se batizar também. Hoje toda a família é dessa igreja", conta.
Nem por isso Marco é menos desconfiado de sua mulher, com quem é casado há 10 anos e tem dois filhos. "Comecei a trabalhar ainda adolescente com meu pai, o Evódio Eloízio de Souza. As muitas coisas que vi entre casais acabaram se refletindo no meu dia-a-dia. Ligo toda hora para saber o que minha mulher está fazendo, claro que disfarçando para não dar muito na vista. Ela sabe como sou e encara numa boa", conta Marco, que coordena os cursos de Detetive na Central Única dos Detetives do Brasil, na rua 24 de maio, 188, Centro. Os altos ganhos da profissão - para um iniciante em torno de R$ 2 mil e para os experientes a partir de R$ 8 mil" - fazem aumentar a cada dia o número de alunos, que acompanham as aulas pessoalmente ou por correspondência. " Mas, para ser um bom detetive, o fundamental mesmo é gostar da profissão, ter faro, cara-de-pau, muita prática e um bom arsenal de equipamentos", explica Angela. Uma das lições mais importantes que Marco procura transmitir aos futuros detetives é o cumprimento rápido e eficaz do trabalho, doa a quem doer. " Não se pode ter pena de entregar os outros, é preciso ser frio, durão. Somos pagos para isso".
Entre unhadas e beijos
A ginecologista da dona de casa M.F.S., de 52 anos, foi a primeira alertá-la sobre possíveis aventuras extra-conjugais do marido, com quem estava casada havia 27 anos e tinha três filhos, de 15, 14 e 11 anos. "Mas ela falava rindo e nem ligava, achava que era brincadeira e também porque eu confiava cegamente nele", recorda. A confiança foi terminada quando M. passou a ver que o marido chegava em casa com marcas de unhadas e beijos mais violentos. " Resolvi dormir em um quarto separado dele, porque fiquei com medo de doença."
Não demorou muito para que o marido, um militar culto e de boa aparência financeira, a tirasse de São Paulo para uma casa simples, em uma cidade próxima a Botucatu, a três horas de viagem da Capital. " Ele dava tudo em casa e de uma hora para outra o dinheiro começou a escassear. Passei muita privação e ele dizia que eu precisava economizar para a educação das crianças." Na verdade, o dinheiro ia para a ex-secretária de seu marido, 13 anos mais jovem que M. e para quem o militar pagava tudo, inclusive a faculdade de Informática. " O primeiro detetive que contratei foi um safado que me levou R$ 2 mil e desapareceu. Como precisava descobrir o que acontecia, contatei a Angela em outubro de 1997. ele foi ótima. Cobrou quase R$ 3 mil, mas valeu a pena, porque foi amiga e de total confiança. Desvendou tudo dois dias depois. Meu marido não só tinha uma amante como morava com ela em um subúrbio miserável em Sapopemba e era pai de uma menina", lembra M., que se separou judicialmente e entrou em depressão. " Não queria saber de mais nada. Perdi 15 quilos em 10 dias. Mas agora resolvi parar de chorar e me cuidar. A vida continua e me sinto vingada", diz ela, com um meio sorriso. " Durante as investigações, os agentes de Angela, sem querer fotografaram a amante do meu ex-marido aos beijos e abraços com um rapaz na frente da casa de Sapopemba. Mostrei as fotos a ele e disse que ele era pior que um corno, porque era um corno público."
O empresário César Farias, de 34 anos, é um dos que defendem com entusiasmo a contratação de um bom, detetive quando há desconfiança no negócios. " O empresário não tem como fugir da crise que sempre ronda o País e da briga com os concorrentes. Perder tempo e ficar se preocupando para saber se está sendo roubado pelos empregados ou sócios torna quase impossível o bom desempenho", diz ele, dono de dois restaurantes, duas pizzarias e um mercado de atacado na cidade.
Em 1997, César contratou os serviços de Marco Aurélio, que mantém uma agência de detetives formados em sua escola. " Precisava fazer uma viagem de um mês para o Pará. Ia tentar acertar a compra de uma fábrica de queijos e não podia acompanhar de perto o desempenho de meus gerentes, aos quais confiei as lojas. O Marco e o pessoal dele instalaram equipamentos e quando voltei pude comprovar que meus funcionários agiam dentro da maior honestidade", diz. César resolveu contratar Marco porque no ano anterior havia sido lesado por gerentes durante uma viagem de negócios de três meses.
As investigações empresariais costumam ser mais caras do que os casos de família. " Mas vale a pena. Calculo que perdi, na primeira viagem, algo em torno de R$ 20 mil. Paguei menos de 10% desse total ao Marco para ter paz", diz, sorrindo. " O preço costuma ser mais alto porque temos de colocar especialistas sobre o assunto investigado para trabalhar dentro da empresas ou com os dados que conseguimos obter", explica Angela. " Os casos mais comuns são sobre desvio e roubos de cargas, venda e roubo de informações e espionagem empresarial", detalha ela, antes de frisar que não aceita caso de espionagem. " Só fazemos contra-espionagem, que é a proteção da empresa contra os que querem saber seus trunfos comerciais".

 

 
 
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